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Entrevista
com Professora
América
Cesar, Autora
do livro "Lições
de Abril: a Construção
de Autoria entre
os Pataxó
de Coroa Vermelha"
(Edufba)
29.04.2011
Em clima de
lançamento
do livro Lições
de Abril: a construção
de autoria entre
os Pataxó
de Coroa Vermelha
, o Espaço
do Autor traz
uma entrevista
exclusiva com
a autora América
Cesar. Professora
do Instituto de
Letras da Universidade
Federal desde
1994, onde graduou-se
e obteve o título
de mestrado, América
Cesar é
Doutora em Linguística
Aplicada pela
Universidade Estadual
de Campinas. Trabalha
com pesquisas
na área
de linguística,
cultura e educação.
Atualmente, desenvolve
atividades para
o magistério
indígena
e coordena o núcleo
local do Observatório
Escolar Indígena
(CAPES/ INEP/
SECAD).
Por Laryne Nascimento
29 de abril de
2011
1 - Como surgiu
a ideia de realizar
o trabalho de
pesquisa que deu
origem ao livro
Lições
de Abril: a construção
de autoria entre
os Pataxó
de Coroa Vermelha?
O eixo da pesquisa
é consequência
de trabalho antigo
na área
ambiental, mais
precisamente no
início
da década
de 90, no movimento
de defesa do São
Bartolomeu, uma
reserva de mata
atlântica
na região
metropolitana
de Salvador, de
fundamental importância
para algumas religiões
tradicionais de
matriz africana.
A compreensão
do estudo da linguagem
implicado com
a importância
das águas
e das matas para
a sobrevivência
da diversidade
sociocultural
e linguística
do entorno, me
levou a provocar
e refletir sobre
a construção
do texto escrito
de professoras
das escolas públicas
do subúrbio
ferroviário,
que participavam
do Programa Memorial
Pirajá
.
Posteriormente,
em 1997, continuei
a olhar essa mesma
construção
de autoria, mas
agora já
no processo de
formação
dos professores
indígenas
no primeiro curso
de magistério
indígena
na Bahia. Como
era professora
de língua
portuguesa no
referido curso,
resolvi fazer
minha pesquisa
de doutorado com
o letramento do
professor (a)
indígena,
no Programa de
Pós-Graduação
em Linguística
Aplicada da Unicamp,
que tem um grupo
de pesquisa pioneiro,
direcionado para
a formação
do professor indígena.
Daí para
Coroa Vermelha,
explico no livro,
foi o trabalho
se fazendo já
meio fora de controle
das minhas intenções
iniciais. O livro
é a publicação
da tese, que foi
defendida em 2002.
2 - Qual foi
o momento que
mais lhe impressionou
durante todo o
trabalho de pesquisa
realizado na Aldeia
de Coroa Vermelha?
Realmente foi
a repressão
absurda que foi
feita pelo governo
de então
contra os diversos
atores que se
mobilizaram no
chamado Brasil
Outros 500 , ou
Movimento de Resistência
Indígena,
Negra e Popular
. E, embora os
acontecimentos
de abril não
tenham sido o
foco do meu trabalho,
terminaram ganhando
uma dimensão
maior do que a
que eu esperava,
justamente pela
violência
das ações
geradas nas mais
diversas esferas.
Como eu era uma
pesquisadora que
estava morando
na área
naquele período,
não pude
deixar de observar
e de me afetar
por aqueles acontecimentos,
mudando o meu
percurso de pesquisa.
3 - Durante
o processo de
pesquisa para
a composição
do livro, a senhora
enfrentou alguma
dificuldade?
A pior de todas
foi conviver e
compartilhar com
os indígenas
do clima de tensão
gerado pela repressão
policial que se
acirrou significativamente
à medida
que se aproximava
o 22 de abril,
data emblemática
no projeto comemorativo
oficial, e depois,
o 26 de abril,
dia também
emblemático
para a igreja
católica,
com o evento da
missa dos 500
anos de evangelização
do Brasil. Depois,
foi decidir o
que deveria dizer.
4 - Em sua
opinião,
de que modo esta
obra auxilia na
discussão
sobre a atual
situação
dos povos indígenas
no Brasil?
Bom, na análise
dos acontecimentos,
pude teorizar
sobre o processo
que chamo de "construção
de autoria/autonomia",
que na verdade
é uma reinterpretação
do que se poderia
chamar "resistência
Pataxó".
Essa construção
teórica
é fruto
da tentativa de
compreender como
os sujeitos subalternizados,
historicamente
oprimidos, como
diria Paulo Freire,
conseguem "tomar
a palavra"
e se autorizar
como produtores
de discursos (
e aí inclua
a própria
autora). Na análise
dos acontecimentos
de abril, procurei
demonstrar como
os Pataxó
se apropriaram
dos acontecimentos
e os assimilaram
dentro de uma
lógica
própria,
que muitas vezes
escapava aos esquemas
previsíveis
na ordem do discurso
dominante, seja
o do governo,
seja o da igreja,
seja o do próprio
movimento de resistência
organizado em
torno do Brasil
Outros 500 . Na
verdade, os acontecimentos
de abril são
só o mote
para analisar
alguns mecanismos
dessa "construção
de autoria/autonomia".
Acho que dá
uma idéia
da diversidade
de posições
e expõe
a complexidade
das relações
interétnicas,
inclusive dentro
da própria
comunidade indígena.
Se o que digo
no livro fizer
refletir sobre
essa complexidade
e contribuir para
posições
menos assimétricas
entre índios
e não-índios,
ficarei muito
feliz.
5 - Como a senhora
avaliaria a produção
literária
acerca da situação
dos povos indígenas
nos dias atuais?
A produção
literária
acerca da situação
dos povos indígenas
ainda é
muito pouca para
a importância
histórica
e diversidade
dos povos indígenas,
só para
ficar no Brasil.
Mas, felizmente,
os próprios
indígenas
se apropriam hoje
dos mais diversos
instrumentos e
conquistam cada
vez mais espaços
no sentido de
serem ( eles e
elas) os autores
dos seus textos,
das suas ciências
e da sua História,
criando explicitando,
documentando,
teorizando epistemologias
e referências
próprias.
Só para
dar um exemplo,
a propósito,
no ano de 2007,
os professores
e professoras
Pataxó
lançaram
um livro cujo
título
é "Pataxó:
uma história
de resistência"
em que eles contam
a História
do povo Pataxó,
inclusive esses
acontecimentos
de abril, sob
a sua ótica.
Infelizmente,
a tiragem foi
muito limitada
e esse livro só
circulou, praticamente,
nas comunidades
indígenas.
Infelizmente,
os instrumentos
burocráticos
para a concessão
de recursos para
publicação
dificultam, quando
não impedem,
a divulgação
da produção
intelectual indígena.
Está na
hora de as editoras
das universidades
prestarem atenção
para a produção
literária
de autoria indígena,
principalmente
essa produção
dos professores
e demais intelectuais
indígenas
nas escolas e
nas universidades.
6 - Após
o lançamento
deste livro, Lições
de Abril , há
planos para publicação
de outras obras
de sua autoria?
Gostei do que
disse uma colega:
a publicação
do livro é
apenas o trabalho
de uma professora
de escola pública
prestando contas
ao público.
Mas, por enquanto,
acho que dá
para descansar
um pouquinho,
antes de outra
prestação
de contas.
7 - Deixe
uma mensagem para
os leitores da
EDUFBA.
Se tem uma coisa
que me angustia
é ver a
durabilidade,
a capacidade de
perpetuação
do racismo, do
sexismo, da homofobia,
dentre outras
formas de opressão.
Por isso seria
muito bom se cada
gesto nosso diariamente
pudesse realmente
contribuir para
explicitar, desmistificar,
enfrentar, acabar
de vez com essas
e outras formas
de degradação
da dignidade humana.
É muito
utópico,
mas utopia faz
falta.
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