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Ângelo
Pankararé
foi
assassinado
a
26
de
dezembro
de
1979,
poucos
dias
depois
da
fundação
da
Anaí,
então
Anaí-Bahia.
Fomos
todos
brutalmente
surpreendidos,
naquele
recesso
natalino,
pela
notícia,
cujo
impacto
viria
a
marcar
para
sempre
os
nossos
então
jovens
corações
e
mentes
indigenistas.
Mais
que
isso,
colocou-nos
diante
do
grande
desafio
de,
numa
Anaí
ainda
no
berçário,
tentarmos
enfrentar
com
competência
e
serenidade
aquele
nosso
duro
"batismo
de
fogo"
institucional.
O
assassinato
de
Ângelo
foi,
assim,
um
marco
na
fundação
da
Anaí,
ao
ensejar
o
nosso
primeiro
esforço
institucional
engajado
de
produção
documental
e
de
reflexão
política,
antropológica
e
indigenista.
Um
dia
após
a
morte
do
líder
indígena
soltamos
uma
primeira
Nota
à
Imprensa
(o
que
hoje
se
chamaria
um
"release")
e,
já
na
semana
seguinte,
a
primeira
de
1980,
o
"Boletim
nº
1
da
Anaí-Bahia",
que
tinha
como
tema
único
o
assassinato
de
Ângelo
e
a
denúncia
da
situação
de
preconceito
e
perseguições
aos
Pancararé
por
políticos
e
outros
poderosos
do
município
de
Glória,
assim
como
do
mais
absoluto
descaso
para
com
os
seus
pleitos
e
pedidos
de
socorro
da
parte
da
Funai
da
ditadura.
Esse
boletim
nada
mais
era
que
uma
folha
ofício
dobrada
em
duas,
para
fazer
quatro
páginas,
impressas
na
típica
tinta
azulão
dos
mimeógrafos.
Tinha,
na
capa,
o
belíssimo
desenho
de
um
praiá,
por
Orlando
Ribeiro,
e
textos
de
Maria
Rosário
Carvalho
(atual
presidente
do
Conselho
Diretor
da
Anaí)
e
Carlos
Caroso
(primeiro
antropólogo
a
estudar
os
Pancararé).
Foi
diagramado
e
rodado
em
tempo
recorde
não
sabemos
onde,
graças
ao
trabalho
e
às
mediações
da
historiadora
Beth
Capinam;
sendo
Beth,
Orlando
e
Rosário
três
dos
nossos
sócios
fundadores
não
esquecidos.
Muito
do
que
produzimos
de
informação
política
indigenista
e
mesmo
de
reflexão
antropológica
naquelas
primeiras
semanas
que
se
seguiram
ao
assassinato
de
Ângelo
veio
a
contribuir
também
com
outras
publicações,
destacadamente
o
"Caderno
número
2
da
Comissão
Pró-Índio
de
São
Paulo",
que
teve
como
tema
"A
Questão
da
Terra"
e
que
tem,
em
sua
folha
de
rosto,
fotos
de
Ângelo
Pankararé
e
de
Ângelo
Kretã,
cacique
caingangue
assassinado
logo
em
seguida,
em
janeiro
de
1980,
no
Paraná.
Esse
Caderno,
na
verdade
um
pequeno
livro,
foi
lançado
durante
o
encontro
"Índios:
direitos
históricos",
em
um
evento
no
convento
dos
dominicanos,
com
a
presença
de
alguns
dos
filhos
e
netos
de
Ângelo,
residentes
na
aldeia
do
Brejo
do
Burgo
ou
em
São
Paulo.
Àquela
época
crescia
muito
a
mobilização
de
povos
indígenas
no
Brasil
e
no
Nordeste
pelo
reconhecimento
de
seus
direitos,
inclusive
daqueles
até
então
ainda
não
"reconhecidos"
pelo
estado,
como
os
Pancararé.
Ângelo
havia,
como
muitos
Pancararés
ontem
e
hoje,
passado
parte
de
sua
vida
trabalhando
como
operário
em
São
Paulo,
contingência
a
que
são
levados
-
como
outros
sertanejos
nordestinos
-
pela
perda
de
suas
terras
e
total
ausência
de
apoios
e
de
"reconhecimento".
Quando
retornou
à
sua
comunidade
no
Brejo
do
Burgo,
Ângelo
decidiu
liderar
a
luta
do
seu
povo
pelo
"reconhecimento"
oficial
e
pelo
resgate
de
suas
terras
invadidas
por
posseiros
e
políticos
locais.
Foi
escolhido
como
cacique,
estimulou
o
fortalecimento
dos
rituais
tradicionais,
como
o
Praiá,
e
passou
a
investir
os
recursos
que
duramente
acumulara,
como
trabalhador
em
São
Paulo,
para
a
realização
de
viagens
e
de
contatos
com
agentes
do
governo
e
possíveis
aliados,
levando
pela
primeira
vez,
a
círculos
mais
amplos,
a
notícia
da
existência
dos
Pancararé,
de
suas
demandas
e
reivindicações.
Com
isso
passou,
também,
a
receber
muitas
ameaças
de
morte,
do
que
fez
corajosas
denúncias
que
jamais
foram
tomadas
em
consideração
pelos
donos
do
poder.
Hoje,
os
Pancararé
são
um
povo
forte
e
organizado,
e
como
resultado
da
luta
inspirada
por
Ângelo,
têm
suas
terras
demarcadas
e
homologadas.
Em
dezembro
de
2009
tanto
a
fundação
da
Anaí
quanto
o
assassinato
de
Ângelo
Pancararé
completaram
trinta
anos...
E
o
Pinaíndios,
que
completou
um
ano
de
existência,
não
poderia
deixar
de
se
motivar
pela
memória
de
Ângelo
Pereira
Xavier,
patrono
do
Aiapan.
Equipe
Executiva
da
Anaí
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